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SEGREDO É PARA QUATRO PAREDES
Por Pedro do Coutto na Tribuna da Imprensa

Reportagem assinada por Mário Magalhães, "Folha de S. Paulo" de 19 de novembro, revela que de forma surpreendente o governo Lula não está se mostrando disposto a atender às solicitações da ONU e do procurador geral da República, Antônio Fernando de Souza, para liberar os arquivos do período que marcou a ditadura militar de 64 a 85. Tanto não se mostra disposto a atender que não liberou até agora, apesar de reiterados pedidos. Por que a omissão? Não faz sentido. Segredo, como compôs o genial Herivaldo Martins, na década de 40, é para quatro paredes. Só.
Em todo o mundo, documentos reservados, sigilosos e até secretos, ultrapassados os prazos naturais de segurança, são tornados públicos. Assim aconteceu nos Estados Unidos, por exemplo, quanto à participação de Washington no golpe militar que derrubou o presidente João Goulart. Há trinta anos, inclusive, o jornalista Marcos Sá Corrêa, em reportagem publicada no "Jornal do Brasil", divulgou documentos aos quais teve acesso na Biblioteca Lyndon Johnson, no Texas, que revelaram (e revelam) a participação americana na trama, articulada através do embaixador Lincoln Gordon e do adido militar, coronel Vernon Walters, este fortemente ligado à CIA. Marcos Sá Corrêa, com a matéria, fortaleceu a história do Brasil, justapondo a verdade contra a ficção.
Os Estados Unidos possuem enormes interesses econômicos e financeiros em nosso PaÍs e há 42 anos temiam perdê-los. Daí a intervenção. Hoje, não temem mais. E olha que os interesses atuais são muitas vezes maiores do que os de antigamente. Somente a participação de bancos estrangeiros no mercado de títulos do Tesouro que lastreiam a nossa dívida interna (para não falar na externa) passa de 300 bilhões de reais, cerca de 140 bilhões de dólares.
Os Estados Unidos são o tigre de papel de que falava Mao Tse Tung na ocasião das guerras da Coréia e do Vietnã? Nada disso. É que antigamente havia um projeto de ocupação econômica direta com alvo principalmente na Petrobras, na siderurgia, na mineração e no setor elétrico. Nos tempos modernos, não há mais. Fernando Henrique Cardoso flexibilizou a empresa estatal, vendeu a Vale do Rio Doce a preço de banana, privatizou totalmente a distribulação da eletricidade. A Cia. Siderúrgica Nacional deixou de ser patrimônio do Estado.
Enfim, os pontos nevrálgicos que levaram à campanha de "O Globo" de Roberto Marinho e dos Diários Associados de Assis Chateaubriand contra Vargas hoje estão envoltos com uma blindagem isolante total. A realidade é outra. As pessoas e os fatos passam com o tempo. Ia esquecendo: a privatização do setor elétrico, na parte da distribuição, deixou um rombo no BNDES superior a 4 bilhões de dólares. Só a Light deve 1 bilhão e 300 milhões. A Eletropaulo, 1 bilhão e 200 milhões.
Responsável pelo descalabro: o presidente Fernando Henrique Cardoso. Não fosse a firme atuação de Luís Carlos Santos, hoje deputado federal, teria vendido Furnas, a segunda estatal brasileira, por um preço dez vezes menor do que seu patrimônio.
Mas deixando a economia e os absurdos de FHC e retornando à história política, não podemos encontrar qualquer justificativa lógica para o temor do Planalto em liberar as sombras do passado. Nenhuma. Sobretudo porque já foram publicadas obras admiráveis como os livros "Tortura nunca mais", coordenado pelo cardeal Evaristo Arns, a "Ditadura derrotada" e a "Ditadura destroçada", obras monumentais de Élio Gáspari, que iluminam e fotografam os porões dos anos de chumbo. Além de sua enorme expressão literária, são peças definitivas que se incorporam à história do Brasil.
Antigamente, no País, os livros de história em que estudávamos na década de 40 começavam e terminavam no passado, limitando-se ao trajeto do Império à proclamação da República. Espero que o sistema de ensino hoje seja moderno. Afinal de contas, como definiu magistralmente o grande historiador inglês Arnold Toynbee, a história também é o presente. Os jornais e a internet garantem este trajeto no tempo.
Basta que não haja obscurantismo e haja disposição para iluminar as esquinas e os porões da história.
Não há razão para o governo Luís Inácio da Silva temer os arquivos, temer a realidade. Tornar livres os documentos aprisionados pela penumbra da noite e expô-los à luz da alvorada é, acima de tudo, uma obrigação. Do presidente Lula para consigo mesmo, do governo para com a nação. A história é também o presente. Mas a nação é o presente e o futuro. No processo universal da percepção e do conhecimento humano, páginas sempre serão viradas e fatos vão ser eternamente deixados para trás. Assim é a política, assim é a vida, assim é a humanidade.
Imagine-se a não divulgação dos documentos que envolvem o desfecho da crucificação. A humanidade perderia com isso. E não poderia indagar, como faz o rabino Nílton Bonder, na sua obra sobre a alma, como Jesus Cristo terminou glorificado e divinizado exatamente pelo segmento (Roma) com o qual se defrontou há 1973 anos. Presidente Lula, libere os documentos.


Editado por Giulio Sanmartini   às   11/23/2006 10:15:00 AM      |