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“O CHEFE” - 6A. PARTE
por Carlos I.S. Azambuja, professor em Mídia sem Máscara
Lula, mais uma vez, não deu nomes. O presidente refutou que tenha trabalhado para impedir a criação das CPIs que investigam seu governo e o PT. Diz Lula: – “O que é importante para mim e que me deixa muito de cabeça erguida é o seguinte: nós estamos com três CPIs funcionando, não há nenhuma ingerência do governo para criar nenhum problema para a CPI. Acho que o povo brasileiro deve aproveitar que eu estou na presidência da República e, se alguém tiver denúncias, tem que fazer as denúncias porque elas serão apuradas”.
Em outro trecho da entrevista, Lula defendeu o deputado José Dirceu (PT-SP), apontado como o grande operador do esquema de pagamento a parlamentares. – “Feliz o país que tem um político da magnitude do Zé Dirceu”. Lula diz que seria advogado de defesa de Dirceu: – “Qual é a acusação que existe contra o Zé Dirceu?”
O publicitário Duda Mendonça, marqueteiro da campanha política que elegeu Lula presidente em 2002, admitiu ter recebido recursos de caixa 2 no exterior. Lula rechaçou o evidente crime eleitoral. Para ele, a prática foi reconhecida apenas pelo “nosso Delúbio”, e nas eleições municipais de 2004. O presidente também defendeu o filho, Fábio Luiz Lula da Silva, cuja empresa recebeu aporte de R$ 5 milhões da Telemar, uma concessionária de serviços públicos: – “Todos os contratos são regulares, todos. Nenhum é irregular”. Lula não aceitou que Celso Daniel foi vítima de crime político: – “Não acredito no envolvimento do PT no caso Celso Daniel”.
O jornal O Estado de S. Paulo publicou o editorial “Um espanto de entrevista”: “A tal ponto chegou a enrolação que um dos entrevistadores não se conteve e afirmou: ‘A discussão não é se houve ou não caixa 2. É quanto foi’. Lula não se deu por achado, como não se daria, em outro bloco, quando um jornalista desmentiu, com fatos, a sua risível versão de que o governo jamais tentou impedir a criação da CPI dos Correios. Uma escapatória que o presidente buscou a todo momento foi a de declarar, magistral, que não se pode condenar quem quer que seja sem provas – como se já não houvesse uma pilha de provas, inclusive flagrantes – contra os seus companheiros. Para ele, tudo reduzindo a ‘denuncismo vazio’”
Em 11 de novembro de 2005, fracassou a operação mata-CPI. Lula chefiou pessoalmente negociações para deputados retirarem assinaturas do requerimento de prorrogação da CPI dos Correios. Mas os trabalhos da comissão foram estendidos até abril. Lula queria que as investigações terminassem em dezembro e não “contaminassem” o ano eleitoral. O jurista Miguel Reale Júnior defendeu o pedido de impeachment de Lula. Para ele, a operação posta em prática para tentar impedir a prorrogação dos trabalhos da CPI dos Correios é motivo suficiente. Diz Reale Júnior: – “Ficou configurada a compra de deputados para conseguir barrar uma CPI que investiga o governo. O presidente não pode mais comandar a nação”. De acordo com o jurista, Lula mentiu no programa Roda Viva ao dizer que não interferiria nas investigações. Agora, deve ser responsabilizado com a perda do mandato: – “O presidente deixou suas digitais e assumiu o crime. Os deputados que retiraram as assinaturas não foram compelidos por alguma ideologia ou raciocínio específico, mas pelo simples suborno patrocinado pelo governo”.
Em 18 de novembro de 2005, em entrevista coletiva a emissoras de rádio, Lula apoiou o ministro Antonio Palocci (PT-SP), alvo de denúncias: – “O meu companheiro ministro Palocci continua tendo de mim toda a consideração que eu tinha antes, tenho agora e vou ter depois. E, se vocês querem que eu diga, eu vou repetir aqui: Palocci é e vai continuar sendo o meu ministro da Fazenda”.
Em 23 de novembro de 2005, declaração de Lula ao inaugurar uma plataforma de petróleo em Niterói (RJ): – “O Palocci é uma figura imprescindível ao Brasil. Todos sabem o que o Palocci significa para a economia brasileira”.
Em 24 de novembro de 2005, em entrevista concedida no Palácio do Planalto a quatro emissoras de rádio de São Paulo e do Rio, Lula mostrou-se alheio às graves denúncias contra o PT e integrantes de seu governo. As pérolas do presidente: “No dia em que o Brasil todo acordar pensando de forma positiva, a força que essa energia vai passar será tão grande que este país poderá, definitivamente, se transformar em grande potência”. “Uma coisa que nós aprendemos a fazer é que a vida humana é tão bonita e tão curta, que não há tempo para a gente ser pessimista”. “Não há razão para um casal brigar, porque não tem nada pior na vida do que você sair para trabalhar brigado com a esposa, ou a esposa brigada com o marido. É um dia infernal”.
Além das lições de vida, o presidente pareceu inspirado ao fazer comentários sobre a crise política: “Sabe, mexer no Palocci é a mesma coisa que pedir para o Barcelona tirar o Ronaldinho. Deixa ele jogando, ele está bem. De vez em quando o Ronaldinho perde um gol, de vez em quando o Palocci pode dizer alguma coisa que alguém não goste, mas isso faz parte da vida”.
Sobre o mensalão: “Só tem três possibilidades de um presidente saber: se ele participou da reunião, se alguém que participou contou para ele, ou se a imprensa denunciar”. Lula nega: “Estamos vivendo um momento excepcional, do ponto de vista da intranqüilidade na política, porque se colocou na cabeça do povo, ao longo de vários meses, que tinha mensalão. Isso virou refrão de música de carnaval, está no inconsciente da sociedade e agora a CPI terminou o trabalho sem provar se houve mensalão. A própria pessoa que acusou foi cassada porque não provou”.
A morte de Celso Daniel, um “acidente de percurso”: “Não acredito em crime político. Eu acho que o assaltaram, seqüestraram, aí perceberam, como se diz, o tamanho do peixe, e resolveram matar de forma irresponsável e por medo”. “Uma parte do Ministério Público de São Paulo, toda vez que vai chegando a eleição, levanta esse caso”. Lula parece Paulo Maluf.
Em 07 de dezembro de 2005, em entrevista a emissoras de rádio, Lula afirmou: “Eu levaria o José Dirceu para o palanque, até porque ele foi cassado e não foi provado nada contra ele. Até agora não vi nenhuma acusação que possa dizer “Dirceu cometeu um delito”.
Em outro trecho, o presidente diz que o uso de caixa 2 foi um “erro abominável”: “Não pense que fiquei inibido de ser petista. Pelo contrário, agora estou mais orgulhoso. Acho o seguinte: nós também não somos infalíveis, cometemos erros e quando cometemos erros, temos de pagar e pagar forte”.
Em 09 de dezembro de 2005, a revista Carta Capital publicou uma entrevista com Lula. O presidente defendeu o PT ao ironizar o esquema montado por Delúbio Soares e Marcos Valério, que contraiu supostos empréstimos no BMG e no Banco Rural: “Trata-se do ato de corrupção mais inusitado da história da humanidade, ou seja, alguém pratica corrupção com dinheiro emprestado e pagando juros, eu não consigo entender. Tem alguma coisa errada aí”. Ao referir-se à crise política, Lula acusou setores oposicionistas de estarem “tentando fazer golpismo” contra ele.
Em 16 de dezembro de 2995: Em quase três anos, o governo Lula empregou mais de 40 mil pessoas em caráter temporário. Cerca de 4 mil, para cargos de assessoria e comando. Os contratos por tempo determinado dispensam concursos públicos. Dados do boletim estatístico de pessoal do Ministério do Planejamento registram que 5.413 nomeações efetivadas contemplaram indicações sem qualquer vínculo com o serviço público. São nomeações políticas. Mesmo entre os 19.757 cargos comissionados preenchidos supostamente por servidores, sabe-se que parte considerável acaba ocupada por indicações políticas.
Enquanto o governo nomeia, Lula capricha no discurso de vítima. Em visita a Garanhuns (PE), trata do escândalo do mensalão: “Todas essas infâmias e acusações que vocês vêem na televisão, vocês sabem como é o jogo político brasileiro. Como acho que Deus escreve certo por linhas tortas, haverá o dia em que o povo vai saber o que é o jogo político e o que é a verdade”.
Em 17 de janeiro de 2006, em depoimento à CPI dos Bingos, o economista Paulo de Tarso Venceslau, expulso do PT em 1998, afirmou que dirigentes do PT sabiam de esquema para a arrecadação de recursos por meio de caixa 2, desde 1995. Naquele ano, Venceslau enviou carta registrada em cartório ao presidente do partido, Luiz Inácio Lula da Silva. Denunciou que a empresa Cpem (Consultoria para Empresas e Municípios), ligada a Roberto Teixeira, compadre de Lula, agia de forma irregular em prefeituras administradas pelo PT. Era contratada sem licitação para fazer um trabalho baseado “em notas falsas e rasuradas”, visando aumentar a arrecadação dos municípios com ICMS. Cobrava comissão de 20% pelos serviços. Na década de 80, Lula morou de graça em imóvel de propriedade de Teixeira, em São Bernardo do Campo (SP).
Em 13 de fevereiro de 2006: Jantar em comemoração do 26º aniversário do PT. Durante a festa em Brasília, Lula minimizou a importância do escândalo do mensalão mas não faz citações diretas: “As pessoas que erraram, a gente não tem que execrá-las. Errar é humano”.
Na festa, os mensaleiros João Paulo Cunha (PT-SP), José Mentor (PT-SP), Paulo Rocha (PT-PA) e Professor Luizinho (PT-SP). Coube a Luizinho puxar o coro pela reeleição do presidente: “Um, dois, três, Lula outra vez!”
O presidente do partido, Ricardo Berzoini (PT-SP), tratou de minimizar a crise política: “Sofremos o maior cerco político da história recente do país. Com erros que têm raízes em companheiros do PT, mas que foram instrumentalizados pela oposição”.
Comentário do jornalista Clóvis Rossi, na Folha de S. Paulo: “O PT não foi vítima de uma conspiração, ao contrário do que dizem seus intelectuais orgânicos. Vendeu-se”.


Editado por Giulio Sanmartini   às   9/28/2006 01:36:00 AM      |